17 de novembro de 2007

Harry Potter

Um ponto prévio: sou católica convicta, embora neste caso não possa deixar de expressar a minha indignação perante a posição do Papa sobre esta matéria.
Qual matéria? Pasmem-se sobre o Harry Potter!
Parece que Bento XVI se deu ao trabalho de ler a saga do feiticeiro mais famoso do mundo, e, assombrem-se as almas mais inocentes (como eu), o Papa vem condenar a sua leitura com o argumento de que vai "distorcendo-lhes [aos leitores] a cristandade e a alma" antes que elas possam desenvolver-se. E isto foi dito a uma jornalista alemã a propósito da publicação do livro sexto de J.K. Rowling. Agora com o sucesso de lançamento do último livro da saga, o comunicado do Vaticano é o de que se trata de "uma sedução subtil que tem efeitos profundamente directos, mas discretos, na deturpação da alma do cristianismo antes deste poder crescer propriamente", ou seja, a mesma coisa, mas por outras palavras.
A minha indignação prende-se com isto: alguma vez a autora disse que o Harry Potter não passava de fantasia? Alguma criança não foi ensinada de que é apenas uma história? Não estarão a esquecer-se do impacto estrondoso que os livros tiveram, beneficiando os hábitos de leitura de miúdos e graúdos mais preguiçosos?
Por esta ordem de ideias, as fábulas de La Fontaine também serão condenadas, porque as crianças acreditarão que os animais falam, assim como todas as restantes histórias de fadas e duendes... Ah e não se esqueçam de que na BD do Tio Patinhas também aparece a Maga Patalógica...
Enfim idiossincrasias com as quais não posso pactuar!

2 comentários:

Artur disse...

Tem graça, aqui há uns anos numa escola aqui da região o avô de uma aluna, su´ço esclarecido e evangélico convicto que vinha para o pé de mim brandir livros sobre a imbecilidade que é o Design Inteligente, utilizou precisamente o mesmo argumento, revoltado contra a tentativa da professora de português de tentar interessar os alunos na leitura através do Harry Potter...

O ecumenismo é tão bonito!

José Celestino disse...

O papa? Um tal de Ratzinger que em 1990 quando ainda era cardeal (peço desculpa mas não conheço a hierarquia da igreja, para mim é igual á militar com a diferença que as patentes mais baixas abusam de crianças e as mais altas encobrem quando não estão muito ocupadas a fazer o mesmo), vomitou a seguinte pérola:

"At the time of Galileo the Church remained much more reasonable than Galileo himself. The process against Galileo was reasonable and just."

Óbvio que no século 16 a igreja/inquisição romana não estava tão sanguinária como nos séculos anteriores (perguntem aos cátaros ... hmm, esperem não sobrou nenhum, foram massacrados) mas daí até comparar a sua razoabilidade com a razoabilidade de um dos maiores astrónomos de todos os tempos é ... faltam-me palavras.

Mas considerando o passado do senhor (histórico apoiante de genocídios, quer perpetrados por deus quer, em muito menor escala, por hitler) e, mais importante, considerando que foi lobotomizado pela religião não vale a pena esperar nada de relevante, comedido ou sequer lógico.

"God is a placebo for your own mortality." — Robert Barron.

Anyway, prefiro Tolkien.