Anteontem vi uma reportagem na TV que me surpreendeu. Parece que os espanhóis que vivem na região da "Extremadura" estão a apostar em aprender português desde tenra idade, com o intuito de poderem vir um dia trabalhar para Portugal.
Nem sequer vou falar que não seria propriamente uma coisa muito inteligente de se fazer, tendo em conta que somos nós que estamos a emigrar para Espanha em busca de melhores salários, mas venho apenas dar conta de uma coisa de que me apercebi: é que afinal somos mais parecidos com os "nuestros hermanos" do que eles próprios pensavam ( e nós também).
O povo espanhol não está habituado a ouvir outra língua que não a sua (todos os filmes e programas são dobrados e por norma só ouvem música espanhola). Assim, quando tentam aprender o português falam com aquele sotaque melodioso cheio de vogais abertas e "éles" que tanto lhes é tão particular. E é aí que somos parecidos, porque os portugueses têm a mania que falam espanhol, basta mudar o sotaque às palavras portuguesas; por sua vez, os espanhóis pensam que falam português desde que leiam as palavras escritas em português, independentemente da entoação. Cria-se então uma língua - o "portunhol", que nos aproxima a todos.
Ao criar esta língua que não é de ninguém, mas é de todos, pode ser que deixemos de ir a Espanha e ouvir o antipático "non te entiendo"!!!
12 de novembro de 2007
11 de novembro de 2007
Génio
Tenho um fascínio especial pela mente humana. Especialmente quando a complexidade da nossa mente se revela num génio.
Existem génios nunca descobertos por esse mundo fora. Mas um deles foi português: FERNANDO PESSOA.
A minha admiração por Pessoa vai para além da escrita fluida e clara, para além das palavras simples que dizem tanto. Ainda hoje me escandalizo com um UM humano que afinal tem matéria para ser mais de QUATRO?! A imaginação (e dizem as más línguas, o ópio também) levou-o a desenvolver vários "eus", com personalidade e vida própria. E eu não posso deixar de o invejar... Por vezes, quem não daria tudo para conseguir evadir-se de si próprio e experimentar ser diferente, pensar diferente?! Ele conseguiu! E conseguiu de uma forma que a mim me parece perfeita.
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão - princípe - todos eles princípes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?
Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Existem génios nunca descobertos por esse mundo fora. Mas um deles foi português: FERNANDO PESSOA.
A minha admiração por Pessoa vai para além da escrita fluida e clara, para além das palavras simples que dizem tanto. Ainda hoje me escandalizo com um UM humano que afinal tem matéria para ser mais de QUATRO?! A imaginação (e dizem as más línguas, o ópio também) levou-o a desenvolver vários "eus", com personalidade e vida própria. E eu não posso deixar de o invejar... Por vezes, quem não daria tudo para conseguir evadir-se de si próprio e experimentar ser diferente, pensar diferente?! Ele conseguiu! E conseguiu de uma forma que a mim me parece perfeita.
Quando preciso de ler algo pequeno e que toque a alma, procuro poemas de Pessoa e sinto sempre que não há nada melhor...
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão - princípe - todos eles princípes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?
Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
Álvaro de Campos
7 de novembro de 2007
O futuro
O que é bonito neste mundo, e anima,
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...
É ver que na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
Que se não prova
Se transfigura
Numa doçura
Muito mais pura
E muito mais nova...
Miguel Torga
6 de novembro de 2007
Questão de números
Os piores resultados dos alunos nas escolas são a Matemática. Os estudantes não atinam com as operações a fazer com os números. "É tudo muito complexo", dizem.
Curioso... Especialmente se atentarmos no "big bang" da matemática nas nossas vidas:
Curioso... Especialmente se atentarmos no "big bang" da matemática nas nossas vidas:
- as somas, multiplicações e muitas subtracções com os Euros do ordenado;
- os (míticos) 3% do défice;
- as vítimas num desastre de viação;
- os mortos num atentado terrorista.
Estes são números com os quais todos estamos familiarizados, números com história, mas sem rosto. As pessoas, elemento fundamental da sociedade, reduzem-se a algarismos.
Porquê?
Porque dói muito mais pensarmos nos que contam os tostões, nos que procuram desesperadamente um meio para trabalhar, porque o despedimento lhes bateu à porta para que se cumpram as metas comunitárias do que num número. Tudo seria pior ainda se víssemos os rostos dos que choram pelas vítimas. Imaginem um número igual ao das vítimas, mas de famílias de luto.
Acho que o recurso aos números é uma técnica útil para disfarçar... e até temos desculpa, afinal, não somos nada bons a matemática...
5 de novembro de 2007
Estar
Lisboa, Baixa Pombalina, 22h.
Os poucos que se vêem nas ruas apressam-se para apanhar os transportes para casa.
Provavelmente vêm do trabalho cansados, entediados de cumprir as suas obrigações, de obedecer aos chefes. Correm porque querem chegar ao conforto do lar onde podem recobrar energias.
Deambulam, porém, outros naquelas ruas. Sem trabalho, sem pressas, sem casas.
São simplesmente sem-abrigo. Por uma razão ou por outra escolheram uma vida de exclusão - sem amigos, sem contributo para a sociedade, sem onde morar.
Moram no Mundo, e estão no Mundo, simplesmente.
Sem pressas, sem horários, vivem no perfeito do verbo estar.
Perguntem-lhes se não queriam uma casa. A maioria responder-vos-á (chocantemente para alguns) que não, que esta foi a sua escolha, que a rua é a sua casa. Não terá de trabalhar para pagar a hipoteca nem todas as "mordomias" que uma vida em sociedade exige. Porque simplesmente não quer fazer parte da mesma.
É claro que outros não tiveram escolha. E esse é um assunto tão grave que não me atrevo a debruçar aqui sobre o mesmo.
No rebuliço da vida podíamos optar por ser um "pouquinho de" sem-abrigo: o estar é por vezes mais importante do que ter, fazer e conseguir.
Os poucos que se vêem nas ruas apressam-se para apanhar os transportes para casa.
Provavelmente vêm do trabalho cansados, entediados de cumprir as suas obrigações, de obedecer aos chefes. Correm porque querem chegar ao conforto do lar onde podem recobrar energias.
Deambulam, porém, outros naquelas ruas. Sem trabalho, sem pressas, sem casas.
São simplesmente sem-abrigo. Por uma razão ou por outra escolheram uma vida de exclusão - sem amigos, sem contributo para a sociedade, sem onde morar.
Moram no Mundo, e estão no Mundo, simplesmente.
Sem pressas, sem horários, vivem no perfeito do verbo estar.
Perguntem-lhes se não queriam uma casa. A maioria responder-vos-á (chocantemente para alguns) que não, que esta foi a sua escolha, que a rua é a sua casa. Não terá de trabalhar para pagar a hipoteca nem todas as "mordomias" que uma vida em sociedade exige. Porque simplesmente não quer fazer parte da mesma.
É claro que outros não tiveram escolha. E esse é um assunto tão grave que não me atrevo a debruçar aqui sobre o mesmo.
No rebuliço da vida podíamos optar por ser um "pouquinho de" sem-abrigo: o estar é por vezes mais importante do que ter, fazer e conseguir.
3 de novembro de 2007
Magusto
"A tradição remonta, pelo menos, ao século XVII, ao ano de 1698, e deriva de uma obrigação contraída pela Igreja da antiga Vila do Porco, hoje Aldeia Viçosa. Em virtude de uma doação feita por uma "velha", pensa-se que abastada, talvez até «uma das antigas condessas a quem foi confiado o território portucalense», todos os anos, volvido o Natal, a Igreja tinha por obrigação a esta "velha" rezar-lhe um "Padre Nosso" e que o povo, um dia no ano, pudesse beber vinho e comer castanhas."
[v. http://www.freipedro.pt/tb/261296/guarda7.htm]
Quem diria que uma "velha" de quem ninguém sabe o nome seria a origem das nossas castanhas quentinhas e da boa água-pé, aos quais a gula juntou o chouriço e a batata doce para alegria dos participantes da mesa?!
Abençoada senhora que ao fazer bem aos pobres por meio da Igreja instituiu uma tradição que, apesar de já não ser cumprida com os objectivos de antes, ainda hoje junta família e amigos ao redor de uma mesa.
[v. http://www.freipedro.pt/tb/261296/guarda7.htm]
Quem diria que uma "velha" de quem ninguém sabe o nome seria a origem das nossas castanhas quentinhas e da boa água-pé, aos quais a gula juntou o chouriço e a batata doce para alegria dos participantes da mesa?!
Abençoada senhora que ao fazer bem aos pobres por meio da Igreja instituiu uma tradição que, apesar de já não ser cumprida com os objectivos de antes, ainda hoje junta família e amigos ao redor de uma mesa.
Pontos de Vista
No outro dia assisti a uma conversa em que duas pessoas não se entendiam quanto às qualidades de uma outra.
Pensei "realmente para cada actuação humana há sempre dois pontos de vista":
- Se um homem engana a mulher é um sacana, mas é também um garanhão;
- Se um homem é sensível, é logo chamado também de maricas;
- Se uma pessoa é generosa, é porque é tudo show-off;
- Se alguém é religioso, é porque é cínico;
- Se é frontal, é rude;
- Se é honesto, é parvo;
- Se é simpático, é lambe-botas;
etc, etc, etc.
E o mais engraçado é que cada uma destas visões varia conforme o relacionamento que temos com a pessoa em questão: se é alguém de quem gostamos é apenas um garanhão, sensível, generoso, religioso, frontal, honesto e simpático.
Por isso, antes de avaliarmos os outros do nosso ponto de vista, se calhar vale a pena colocarmo-nos no lugar dos seus amigos e talvez o Homem nos pareça bem melhor.
Pensei "realmente para cada actuação humana há sempre dois pontos de vista":
- Se um homem engana a mulher é um sacana, mas é também um garanhão;
- Se um homem é sensível, é logo chamado também de maricas;
- Se uma pessoa é generosa, é porque é tudo show-off;
- Se alguém é religioso, é porque é cínico;
- Se é frontal, é rude;
- Se é honesto, é parvo;
- Se é simpático, é lambe-botas;
etc, etc, etc.
E o mais engraçado é que cada uma destas visões varia conforme o relacionamento que temos com a pessoa em questão: se é alguém de quem gostamos é apenas um garanhão, sensível, generoso, religioso, frontal, honesto e simpático.
Por isso, antes de avaliarmos os outros do nosso ponto de vista, se calhar vale a pena colocarmo-nos no lugar dos seus amigos e talvez o Homem nos pareça bem melhor.
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